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SOB
O SIGNO DA IMAGEM
Novos espaços
de ensino,
pesquisa e extensão relativos à imagem desenvolveram-se,
durante os anos 90, na Escola de Comunicação da UFRJ.
O Núcleo Cultura e Tecnologia da Imagem (N-Imagem), criado
em 1990, abre uma nova linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação
da ECO, transformada, em 1992, em Área de Concentração
em Tecnologia da Imagem. Esta dará origem, em 1995, ao curso
de Pós-Graduação em Tecnologia da Imagem. Completam
tais iniciativas, no campo da imagem sonora e visual, o Curso de
Radialismo (1993), em nível de graduação, e
a Central de Produção Multimídia, atualmente
em fase de reimplantação, que reunirá laboratórios
de fotografia, editoração, vídeo e televisão,
animação e multimídia.
NÚCLEO
CULTURA E TECNOLOGIA DA IMAGEM
N-IMAGEM
centra seus interesses nas alterações provocadas
pelas novas tecnologias da imagem na sociedade, em especial no
campo da produção cultural. Trata-se de questionar
os efeitos, sobre a prática social e sobre os paradigmas
culturais, da mutação, propiciada por essas tecnologias,
nas condições do exercício do pensamento
que modela o real. Tal mutação se manifesta na conduta
ética e política, na experimentação
educacional e científica, nas rupturas que marcam a reflexão
filosófica e as concepções de mundo. As transformações
da imagem, em suas novas modalidades de concepção
e articulação do espaço e do tempo, afetam
a condição, o imaginário social e o próprio
modo de vida das populações. A sociedade brasileira,
por suas características históricas de dependência
político-econômica, e conseqüente fragilidade
da sociedade civil, é especialmente vulnerável ao
impacto dessas novas tecnologias.
POR
UMA PEDAGOGIA DA IMAGEM
Um dos principais
objetivos que norteiam o trabalho do Núcleo é o
que podemos chamar de uma pedagogia da imagem. Hoje, é
imprescindível ler e lidar com as imagens produzidas no
campo da cultura. A imagem, ao se mostrar, parece afirmar, em
fórmula comum ao discurso autoritário: A realidade
vos fala!
Pedagogia
da imagem é a produção de imagens que coloca
o espectador em posição conflitual em função
do campo de relações de força reais do presente.
A imagem não deve ser apenas vista, fruto de pretensa neutralidade,
que faria com que ela se desse a ver integralmente ao se mostrar:
ela deve ser lida tanto quanto vista. A idéia que a imagem
é pura naturalidade, puro analogon, é, hoje em dia,
mesmo para o senso comum, ultrapassada.
Ao contrário
do que comumente se pensa, o aparecimento da fotografia no campo
da produção imagética ajudou a romper com
essa idéia. Com a fotografia, o equilíbrio da separação
entre natureza e cultura foi abalado, na medida em que ela é
ao mesmo tempo natureza e cultura, registro objetivo e investimento
de linguagem.
A pedagogia
na era pós-fotográfica, aquela que se faz com o
auxílio dos meios de comunicação de massa,
a imprensa ilustrada, os livros de história em quadrinhos,
os livros de arte (o Museu Imaginário de Malraux), o audiovisual
e a multimídia tornaram a relação imagem/palavra
um espaço de relações inauditas.
Desde Platão,
o logos científico ocidental jogou um véu negro
sobre o sensível e a imagem, em prol do inteligível.
Hoje, a tentativa é de apreender um sentido próprio
do visível, de se interrogar sobre a possibilidade de um
discurso falar do sensível sem anular sua alteridade. De
fato, o sensível não está fora da linguagem:
a linguagem não é um meio homogêneo, ela é
fracionada porque exterioriza o sensível em presença
como objeto, mas também porque remete o icônico ao
articulado. O olho está na palavra, já que não
há mais linguagem articulada sem exteriorização
de um "visível". Ele está ainda na palavra
porque existe exterioridade no interior mesmo do discurso que
é sua expressão.
A imagem é um texto: para a semiologia da imagem, não
é apenas do exterior que a imagem é investida configurações
estruturais linguísticas (papel da legenda que acompanha
as imagens impressas, dos diálogos e dos comentários
no cinema e na televisão), mas também do interior
e em sua própria visualidade, que são inteligíveis
porque suas estruturas são parcialmente não-visuais.
Mas a imagem é um texto em sentido mais amplo: ela não
existe sem os jogos da figura e do discurso. Ela só existe
pelo que nela se lê. A imagem não é outra
coisa senão a leitura que dela se faz. Porque não
é o reflexo de um objeto, mas a imagem do trabalho de produção
da imagem, campo de força atravessado por múltiplas
configurações, sejam elas linguísticas ou
não. A capacidade de ler uma imagem na nossa cultura industrial
é tão importante quanto a de ler um texto.
Hoje, uma
espécie de analfabetismo visual atinge os espectadores,
constantemente confrontados com imagens que se articulam sobre
o conjunto de agenciamentos de enunciação, cujo
desenho forma uma cartografia multidimensional, produtora de subjetividade.
Cada um de nós enfrenta, em seu quotidiano, imagens multíplices,
a que é convidado a responder, desejar, refutar, consumir,
ler, digerir, suportar, fabricar. Torna-se cada vez mais imperativo
o exame das diversas condutas assumidas diante das imagens, já
que elas não têm existência autônoma
em relação à postura do espectador.
Quanto aos
domínios de produção e investigação
da imagem, é necessário um enfoque capaz ao mesmo
tempo de situar a imagem e restitui-la ao conjunto da cultura
que nos formula, cultura cada vez mais audiovisual e multimídia.
Nela, a pedagogia da imagem ocupa a disposição da
transdisciplinaridade, disposição das teorias e
das histórias em dimensão indissociavelmente ontológica
e prático-política, endereçando-se àqueles
que pensam a imagem a partir de uma ética integrada à
tarefa de constituição de uma teoria da cultura.
Denominamos aqui, de forma provisória, de dramaturgia aos
diversos dispositivos que atravessam a produção
e o pensamento da imagem. Eles fazem com que a imagem se dê
enquanto campo de força, instável e mutante, de
representação cultural, a saber: configuração
de atividades sociais; construção de novas formas
de espaço-tempo; produção de conhecimento.

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